ENTREVISTA

Por Vera Penêda para Le Cool 102*

 

Tango, Tejo & Fado: Alejandro Laguna

Não chegou por nenhuma razão especial, “a minha razão é que tinha ‘ganas’ de vir

embora da Argentina”, conta. A culpa pode ter sido daquele postal, enviado pelo

músico brasileiro que tocou em Buenos Aires… “Quando vi o postal pensei, “ah, muito bom isto…

um mar assim, esta paisagem não há na Argentina”. Vai para 15 anos que Alejandro Laguna

está em Portugal. Agora tem a síndrome da divisão, é um Argentino europeu,

que fala um português salpicado de espanhol, sente a saudade e dança Tango com Fado.

E uma vez disse ao Camané: ‘Tens que ver como as pessoas dançam a tua música’.

Já está a pensar num novo projecto, que pode por o Tango a dançar com o Hip Hop e o Jazz.

Com a luz baixa, uma cerveja na mão, a banda sonora de Djavan ao fundo, a conversa com
Alejandroaconteceu no Teatro da Barraca, para saber histórias de Tango, Tejo e Fado.

 

Então um dia pensaste vir viver para Portugal?

Foi quase isso. Não vim por uma razão especial, tinha ‘ganas’ de vir embora da

Argentina, queria muito viajar e entretanto surgiu a oportunidade. Tinha 23 anos e

tinha acabado os estudos de Educação Musical e Composição no Conservatório e na

Universidade em Buenos Aires. Depois fiz uma viagem assim meio louca e andei pelo

Brasil durante alguns meses. Regressei a Buenos Aires e tive a oportunidade de ir

estudar para França. Mas é curioso...tinha um postal, enviado por um músico

brasileiro que estivera em Buenos Aires… quando vi o postal pensei, “ah, muito bom

isto… um mar assim, esta paisagem não há na Argentina”, e a minha professora de

música antiga também me garantiu que era um país muito bonito. Acabei por não ir

para Paris, dei uma volta pela Europa e acabei em Portugal. Vivi no Porto, Albufeira,

Cascais e Lisboa, onde já estou há mais ou menos 10 anos.

 

Porque vieste para Lisboa? O que te fez ficar por cá?

Gosto do Porto, da ribeira, muito bonita a cidade. Albufeira não, no Algarve é assim

tudo muito superficial, não há poesia. Lisboa é uma cidade assim...gosto muito do

ambiente, das casas antigas. Para mim, o Tejo ‘es una cosa increíble’.

Da minha casa, vejo o rio, oiço os pássaros, vejo o amanhecer, ‘o sea’, é maravilhoso.

À noite vejo as luzes todas do outro lado do Tejo.

 

Preferes viver em Lisboa ou regressarias a Buenos Aires?

Por agora não vou regressar. Mas...gosto de viver nos dois lados, tenho lá a minha

família e vou todos os anos a Buenos Aires, mas agora tenho a síndrome da divisão.

Sou feliz nos dois sítios mas sinto saudade nos dois lugares. Na Argentina já não sou

um Argentino comum, tenho uma influência europeia muito grande, se nota por todos os lados,

sou argentino europeu, agora não ‘hablo’ muito bem, quer dizer, não falo português correcto,

mas chego lá e falo espanhol com muitas palavras portuguesas. A minha língua agora é

uma mistura de português e espanhol. Quando cheguei cá sabia brasileiro,

porque fui muitas vezes ao Brasil, mas nem serviu de nada (risos)...quando vim pensei

“esta língua...no entiendo nada...no percebia nada...como pode ser?!”.

 

Há alguma coisa em Lisboa que te lembre Buenos Aires?

Não! (resposta rápida). Buenos Aires é aquela cidade em que a qualquer hora vês

um enxame de pessoas, uma cascata de gente a descer a boca do metro,

carros por todoo lado, um movimento impressionante. Numa segunda-feira,

às quatro ou cinco da manhã podes ver esta confusão toda. Só Buenos Aires tem uns

12 milhões de habitantes, tem tantos bairros, tantos bares que é impossível conhecer todos os

lugares. Lisboa podia ser um bairro de Buenos Aires.

Ah! Mas talvez o Fado, sim, o Fado lembra-me algo do Tango, os acordes finais são

muito parecidos com o Tango, a cadência, a harmonia...tchan, tchan (marca com a

mão). No Fado, o cantor também realça a intensidade da frase final, o tempo fica mais

lento, há poesia, a palavra é acentuada com um sentimento e com um sentido

particulares.

 

Em Lisboa... onde ouves esse Fado?

Para ouvir um fadinho vadio, vou à Baiuca, à Tasca do Chico, Alfama, Madragoa e um par de sítios

que não sei como se chamam, estão por aí....

 

Quem é que gostas de ouvir cantar o Fado?

Ai, eu gosto de Camané. E de Cristina Branco, Fernando Maurício, Carlos Zel...já

trabalhei com alguns fadistas. Fiz uma tournée com o António Chainho, a dançar tango com fado,

fica muito bem. Por isso é que o Camané já veio aqui à Barraca. Uma vez disse-lhe ‘Olha,

tens que vir aqui e ver como uma pessoa dança as tuas músicas’. Ele gostou muito.

 

Já dançaste Tango com Fado muitas vezes?

Ah sim, muitas vezes e por exemplo aqui nas aulas da Barraca, todos os Domingos à

noite ponho Fado, resulta muito bem.

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Fomos interrompidos.

- Então...Alejandro! Qué tal?

- Alejandro: Hola, como estás? Estou aqui numa entrevista.

- Sim, boa. Qué vas a tomar?

- Bem, se penso muito, dá-me vontade de cerveja...

Pouco depois a cerveja chega.

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Onde é que as pessoas podem ir para aprender Tango nas tuas aulas?

Dou aulas na Barraca, no Bacalhoeiro e os Seminários costumam ser no Clube

Estefânia. O Tango tradicional está aqui na Barraca, aos domingos. É mais milonguero,

com música das orquestras da década de 40 e com Fado. É mais ‘fechado’,

dançado dentro dos códigos tradicionais do Tango, que foram criados numa época

e para uma música particular, é um baile clássico. Ensino Tango Jovem no Bacalhoeiro,

que é mais livre, baila-se com música electrónica de Buenos Aires, como Gotan Project e Narcotango.

O Tango Jovem é mais experimental, com ‘vueltas’ novas e soluções diferentes para o ‘ocho’, por exemplo.

Ainda organizo Seminários no Clube Estefânia para quem quer começar a apaixonar-se pelo Tango.

 

Qual é a diferença entre o Tango e a Milonga?

Bem, na Argentina, o local onde as pessoas vão dançar tango, o salão de bailes, é

chamado de Milonga, e no mesmo local dança-se ambos os ritmos, mas são duas

linguagens um pouco diferentes. A Milonga também é de Buenos Aires,

mas tem uma melodia e ritmo mais rápidos e compassados. É mais como um merengue,

tem muita influência africana e como é muito rítmica, se não se apanha o tempo fica muito estranha.

O Tango tem uma característica de interpretação mais elaborada, é mais dançado através de estímulos.

Ah...esta música que está a tocar é lindíssima...’Esquinas’ (Djavan).

 

Precisas de muita preparação física para ensinar a bailar?

Bem, eu faço exercício físico por duas razões, para me sentir bem mas também para

entender os outros. Faço Gyrotonic, que é uma técnica que inclui pilates, natação,

elementos de dança, de tai-chi... isto serve-me para conseguir interpretar os

movimentos do corpo quando vejo uma pessoa. É que ultimamente deparo-me

com a qualidade do que ensino, e interessa-me muito conhecer o corpo e a relação

pessoaconsciência,a temporalidade, o equilíbrio, o movimento muscular

e o sentido dos movimentos. Para entender estes aspectos,

é importante eu entender o meu corpo e ter uma base mais conceptual.

Por isso também leio e estou a investigar muito nestas áreas, sobretudo a essência das coisas,

do significado do movimento, da sua interacção com o som.

 

Esse interesse também está relacionado com o teu trabalho na Escola

Superior de Dança como acompanhador musical, não é? O que é que faz um

acompanhador musical?

Sim, estas questões que referi são muito importantes para o meu trabalho como

acompanhador musical de dança contemporânea. Durante as aulas de dança há o

coreógrafo, que cria a dança, e o bailarino que dança os movimentos, e o

acompanhador musical compõe a música para esse movimento. Eu tenho que ter a

capacidade de perceber as qualidades do movimento e dar o sustento musical para

esse movimento, ou seja, tenho que criar o suporte musical para o exercício,

de forma a ajudar os alunos a desenvolver uma consciência musical.

É este suporte que permite associar uma expressão ao movimento,

para que este não se limite a ter uma forma oca, sem ‘personalidade’.

Tenho que me treinar, olho e tenho que descodificar os movimentos,

os saltos, as deslocações, as voltas, de modo a conseguir colocar uma música

que encaixe com esses movimentos.

 

O que é que andas a ler actualmente acerca destes temas?

Ando a ler tudo o que está relacionado com a percepção, para saber como é que o

corpo capta todos os estímulos, o que isso provoca internamente e as acções

subsequentes. Também estou a ler uns artigos relacionados com o modo como a

consciência interpreta a passagem do tempo. Há um jovem autor que me interessa

muito, chama-se Peter Lynds, tem uma concepção algo louca mas muito interessante

sobre a passagem do tempo, uma teoria revolucionária. Vivo um pouco obcecado por

desvendar a ideia de tempo.

Ah sim? A passagem do tempo preocupa-te?

Sim, na verdade acho que não me dou conta da passagem do tempo propriamente

dita. É que o tempo passa, mas nós não sabemos de onde para onde, é uma sensação

da consciência, só o espaço é que fica, sobre o tempo só resta uma relatividade absoluta.

É algo estranho.

 

Tenho que perguntar... (risos) que idade tens?

Estou a começar a ficar traumatizado...(risos)...já tenho 43 anos.

 

O que te falta fazer?

Sei lá...tudo, tudo outra vez.

 

Que outros projectos estás a desenvolver?

Continua a interessar-me muito o projecto do Tango Electrónico para jovens. Procuro

estar em ambientes onde haja gente jovem ligada ao hip hop, ao jazz, ou a outros

ritmos. Procuro um tango que incorpore novas sensações sociais e ritmos diferentes.

Provavelmente vou desenvolver um novo projecto na

área das danças urbanas. Mas gostava de encontrar mais gente receptiva

a projectos criativos e diferentes do que já existe. Adoraria trabalhar em cinema, por

exemplo. Além disso vou continuar a dedicar-me ao ensino, que é sempre uma forma de

perceber as pessoas.

 

E a ti, como é que te vês como pessoa?

Bem...acho que sou trabalhador e considero-me uma pessoa criativa. Sobretudo, sou

muito honesto com o que faço, trabalho na Dança porque é o que realmente gosto e

não por qualquer exigência ou conveniência.

 

 Vera Penêda, Le Cool 102*©